
Mário Benedetti: Por que Cantamos
Se cada hora vem com sua morte
se o tempo é um covil de ladrões
os ares já não são tão bons ares e a vida é nada mais que um alvo móvel
você perguntará por que cantamos
se nossos bravos ficam sem abraço
a pátria está morrendo de tristeza e o coração do homem se fez cacos antes
mesmo de explodir a vergonha
você perguntará por que cantamos
se estamos longe como um horizonte
se lá ficaram as árvores e o céu
se cada noite é sempre alguma ausência e cada despertar um desencontro
você perguntará por que cantamos
cantamos porque o rio esta soando
e quando soa o rio / soa o rio
cantamos porque o cruel não tem nome

embora tenha nome seu destino
cantamos pela infância e porque tudo e porque algum futuro e porque o povo
cantamos porque os sobreviventes e nossos mortos querem que cantemos
cantamos porque o grito só não basta e já não basta o pranto nem a raiva
cantamos porque cremos nessa gente e porque venceremos a derrota
cantamos porque o sol nos reconhece e porque o campo cheira a primavera e
porque nesse talo e lá no fruto cada pergunta tem a sua resposta
cantamos porque chove sobre o sulco e somos militantes desta vida e porque
não podemos nem queremos deixar que a canção se torne cinzas.
Antologia Poética – Mário Benedetti – “só quando transgrido alguma ordem o futuro se torna respirável”.Editora RecordDigitação Camila Ferreira









Logo no início da volta às aulas, prevista para 09 de julho, os alunos da escola NM6 assistirão da 1ª série “A” do ensino médio, a peça de Ariano Suassuna “O Auto da Compadecida”. Peça 



